Verso do Grande Mestre Nissen Shounin nº 2319 

 

“Mesmo fisicamente humanos,
existem os inferiores a animais.

É hábito do ganancioso

esquecer a gratidão”

 

Por Kyoukai Akiyama

Aquilo que nos torna digno como seres humanos é o fato de sentirmos gratidão. A gratidão é um sentimento que nasce do reconhecimento de algum benefício recebido.

Esse sentimento é a base da moral e faz brotar todas as noções positivas das pessoas que visam edificar um mundo melhor. Podemos sentir gratidão a um ser ou pessoa que nos socorreu num momento difícil da vida ou a natureza que nos dá suporte para a nossa existência.

Porém, o budismo prega que apesar da consciência dos benefícios recebidos ser importante, apenas isso não basta. É necessário que exista também o sentimento de retribuição.

Infelizmente muitas pessoas, mergulhadas na escuridão da ignorância e dominadas pelo orgulho e prepotência, acham que não necessitam do auxílio de ninguém e de nada para sobreviverem. Não enxergam os infinitos benefícios que recebem direta ou indiretamente de tudo e de todos que estão ao seu redor. Vivem um mundo por si e para si, e assim não ajudam em nada na melhoria do mundo. 

Mesmo um animal irracional quando tratado com carinho, retribui seu benfeitor com a lealdade e proteção, porém um ser humano mesmo quando reconhecem o benefício recebido, cegos pela cobiça não consegue retribuí-los.

Vou contar aqui a história que aconteceu na década de 20 no Japão, de um cão da raça Akita chamada Hachiko. O seu dono era um professor da Universidade de Tóquio. Desde pequeno foi criado e tratado com extremo carinho por ele. A relação de amizade era tão estreita que tomavam banho de ofurô juntos.

Quando o professor saía de casa para dar aula na universidade, todas as vezes Hachiko o acompanhava até a estação de trem de Shibuya (bairro de Tóquio) e se despedia. Quando chegava a hora do retorno Hachiko voltava a estação e esperava por ele na saída.

Certo dia aconteceu uma fatalidade. Enquanto estava trabalhando na Universidade o professor passou mal e veio a falecer. Durante o velório do professor, Hachiko insistia em ficar perto do caixão, passando a noite toda ao lado de seu dono. Sem entender o ocorrido, Hachiko como sempre foi esperar pela sua volta na estação. 

Como ele nunca chegava, com paciência e com os olhos na multidão que saíam da estação, ficava esperando até que não aguentasse mais de fome e retornava para casa.

Tempos depois ele foi enviado para viver na casa de parentes do professor do outro lado de Tóquio, mas sempre fugia, retornando para sua casa em Shibuya. Depois foi encaminhado para a casa de um amigo do professor, mas sempre fugia e retornava à antiga casa. Hachiko sempre retornava a estação e esperava pela chegada do seu dono e amigo.

Durante dez anos e meio, fizesse chuva ou sol, ou mesmo nevasse, Hachiko aparecia ao final da tarde na estação, precisamente no momento de desembarque do trem, na esperança de reencontrar-se com seu dono. Foi assim até o dia que faleceu, velho e cansado, em frente à estação. 

Ele foi enterrado num canto do túmulo do professor, para que eles finalmente se reencontrassem. E a história de Hachiko tornou-se popular, e como símbolo de lealdade e gratidão foi erguido uma estátua na Estação de Shibuya. 

Diferente da gratidão e lealdade deste cão, existem filhos que abandonam e desrespeitam seus pais na velhice depois de serem criado com tanto carinho e sacrifício por eles. O que faz com que as pessoas sejam ingratas?

O Mestre Nissen Shounin nos ensina: “Aquele que é ganancioso esquece da gratidão”

Para o ganancioso a felicidade é obter o máximo de lucro e sendo a retribuição um ato de despojamento, se torna uma coisa impensável. 

O Sutra Lótus nos ensina a valorizar a gratidão. Ela é a porta de entrada e ao mesmo tempo o ponto final do Budismo. A prática da fé em si é um exercício de gratidão que fazemos na nossa vida.

Portanto vamos pronunciar o Namumyouhourenguekyou, reconhecer e agradecer todos os benefícios que recebemos de tudo que existe no universo, desde o ar que respiramos até os seres que nos possibilitam a manutenção das nossas vidas. No entanto, de nada, vale o reconhecimento se não retribuirmos aquilo que recebemos.

A melhor forma de retribuição é devotar para que nossa existência seja motivo de alegria para salvar todos os seres entre o céu e os quatro mares, movidos pelos mais nobres sentimentos, dentre eles a profunda gratidão.