Fundação da Honmon Butsuryu-Kou

No dia 12 de janeiro de 1857, aos 41 anos de idade, Nissen Shounin fundou a Honmon Butsuryu-Kou [i], diante de apenas 4 fiéis. Já no momento da fundação prenunciou: “Esta religião logo, em breve, somará dezenas de milhares de fiéis”.

Nissen Shounin em uma de suas escrituras, que esclarece os motivos da fundação da Butsuryu-Kou, alega o desvirtuamento na religião Honmon Hokke-Shu. Quando a Honmon Hokke-Shu foi fundada pelo Grande Mestre Nitiryu Daishounin a alegação também foi a mesma de que a linhagem do Grande Mestre Nitiren Daibossatsu, havia sido deturpada. Em outras palavras, tanto a fundação dada por Nitiryu Daishounin, como a fundação realizada por Nissen Shounin tiveram como ponto principal o resgate dos ensinamentos deixados pelo Grande Mestre Nitiren Daibossatsu como renascimento do Jyougyou Bossatsu.

Em 1861 em Otsu [ii], após a expansão ter ocorrido da forma desejada, Mimaki Uhee doou o seu terreno (local do atual Templo Butsuryuji) onde era uma plantação de chá para a edificação de um Templo para a realização dos cultos onde foi iniciada a construção do Hokkedou.

E em abril de 1862 a construção foi finalizada e foi inaugurado pelo próprio Nissen Shounin o Templo Hokkedou, o primeiro templo da Butsuryu-Kou. Considerado o primeiro local onde se proferiam os ensinamentos da Honmon Butsuryu-Kou. E para a inauguração, Nissen Shounin realizou a procissão de transferência da Imagem Sagrada (Gohonzon) e Estátua Sagrada do Grande Mestre Nitiren Daibossatsu (Gossonzou) que lhe pertenciam, ao novo local de Culto em Otsu. Foi assim que nasceu o primeiro templo da Butsuryu-Kou.

Fuga de Nissen Shounin do incêndio em Kyoto

No dia 19 de julho de 1864 ocorreu a batalha do Castelo Goshou [iii], na qual Kyoto foi incendiada. Dentre muitos que perderam suas casas se encontrava o Mestre Nissen, que com a ajuda de Uhee Mimaki e outros fiéis foi obrigado a se mudar para a cidade de Otsu. Após caminhar, se desviando do fogo, chegou em Otsu, residência de Mimaki Uhee. Onde recomeçou uma nova expansão dos ensinamentos budistas.

Brasão Tokugawa

No ano de 1865 ao chegar a Otsu, com o intuito de facilitar as atividades de expansão, passou a ser membro da corte imperial regional de Ninnaji (仁和寺), o Mestre foi nomeado funcionário público e com isso recebeu o privilégio de usufruir do brasão da família real, portanto, começou a usar a Malva como brasão de identificação (A Malva era o famoso Brasão dos Tokugawa [iv]). A partir de então o Hokkedou passou a exibir o brasão real nas luminárias exteriores e na fachada de entrada. Então reformou o Salão Hokkedou onde pôde instalar seus discípulos e foi erguida uma casa ao norte do Hokkedou para o Mestre Nissen. No mesmo ano, comprou o lote vizinho ao Salão Hokkedou e construindo ali algumas salas de estudos e um local adequado para veneração.

Em Otsu, longe das guerras e conturbações, podemos dizer que Nissen Shounin passou por momentos ainda inéditos em sua existência, quase que inacreditavelmente, a vida era calma e tranquila. Tanto que escreveu:

“Costumava amanhecer na turbulenta capital.
Hoje, acordo ao som das carroças de boi”.

Todos os meses, entre os dias 17 e 28, viajava a Kyoto onde, hospedando-se nas residências de Nohara Kyuubee ou Yamada Zengorou, realizava visitas a fiéis e promovia insistentemente a expansão da religião. No ano de 1867, o Mestre Nissen desistiu do cargo de membro da corte imperial regional de Ninnaji devido à imposição do governo de que todos os funcionários públicos deveriam morar dentro do castelo Castelo Goshou, em Kyoto. Caso aceitasse a imposição ficaria impossibilitado de realizar a expansão. Por isso perdeu a exclusividade do uso do Brasão Imperial e os privilégios que ele trazia. Mesmo sabendo que passaria por momentos difíceis de represálias sociais, o mestre, independente do caminho árduo que teria de passar, escolheu dar continuidade à expansão dos ensinamentos budistas.

As atividades de expansão proporcionaram um grande crescimento de fiéis na região. Durou pouco a vida tranquila que Nissen Shounin pôde experimentar.

Exatamente a partir de 14 de outubro de 1867 o Clã Tokugawa, que reinou por aproximadamente 270 anos e 15 gerações de Xoguns [v], devolveu todos os poderes ao imperador. Ou seja, terminado o período Edo (24 de março de 1603 até 3 de maio de 1868), caracterizado pelo domínio do Clã Tokugawa, o Japão, de Nissen Shounin, iniciou uma nova fase da sua história chamada “Restauração da Era Meiji [vi]“.

Foi no primeiro ano dessa nova e árdua história que ocorreu o Otsu Gohounan (Admoestação de Otsu), fruto de uma trama e vários complôs. Em 1868 (o primeiro ano do Era Meiji [vii]) depois de dez anos desde que Honmon Butsuryu-Kou estabeleceu-se, de acordo com a Restauração da Regra Imperial, o novo governo Meiji executou as três principais políticas religiosas no processo de estabelecer o sistema estatal xintoísta: a restauração do Departamento de Divindades, proibindo as crenças religiosas do Cristianismo, e o decreto para a Separação do Xintoísmo. Aproveitando esta oportunidade, um movimento anti-budista chamado Haibutsukishaku Undo [viii] tornou-se ativo em todo o Japão, então, as seitas budistas declinaram ao serem destruídos seus templos, estátuas budistas e escrituras budistas, bem como aboliram os privilégios de monges e monjas budistas.

Graças à edificação do Templo Hokkedou em Otsu, Nissen Shounin transferiu a sua residência de Kyoto para Otsu. E com a presença de Nissen Shounin a expansão se fortaleceu ainda mais.

Major Nagatani Shoushou Nobuatsu 長谷信篤

Honmon Butsuryu-Kou rapidamente estendeu sua influência na região de Kansai, especialmente em Kyoto e Otsu, Shiga. Contra isso, um nobre da corte, Takamatsu, apelou à Prefeitura de Kyoto de que Nissen Shonin estava espalhando a crença do cristianismo, proibida até então no Japão.

Takamatsu fez uma falsa acusação contra Nissen Shonin representando 64 templos em Otsu, que temiam que Nissen Shonin roubasse seus seguidores com a Honmon Butsuryu-Kou [ix]. Temendo perderem espaço e fiéis para a Honmon Butsuryu-Kou, conspiraram contra Nissen Shounin. Foram ao tribunal e, falsamente, denunciaram-no como “Pessoa desconfiável”.

Vejamos os tipos de Shakubukus e críticas veementes que Nissen Shounin fazia aos monges hereges que nada faziam senão enganar aos próprios fiéis:

Não se zanguem, longa vida de ignorantes e lixos
de monges são prejudiciais às pessoas”.

“Não se enganem pensando que são monges
só porque moram no templo e raspam a cabeça“.

No dia 29 de Julho, após Nissen Shounin retomar de Kyoto, pouco antes do almoço, um samurai desconhecido visitou a residência do fiel Assai Yassubee, em Otsu, e dizendo querer se converter à Religião solicitou conhecer Nissen Shounin, e perguntaram:

– Seria aquela casa de portões altos onde mora o professor? Dizem que é famoso e mestre em orientar as pessoas. Gostaria de ouvir pessoalmente seus ensinamentos sobre o Sutra Lótus. Poderia apresentar-me ao professor?

Assai respondeu:

– Claro que sim!

E mandou sua filha, Oshigue, ir comunicar ao mestre sobre a solicitação dos dois viajantes.

Nissen Shounin, feliz pelo comunicado, saiu sorridente como sempre fazia e atendeu imediatamente, mas, ao se aproximar da casa de Assai, Nissen Shounin ouviu o grito da voz de prisão. Eram dezenas de samurais que, naquele instante, aprisionaram Nissen Shounin. Não só o mestre como também os discípulos Koyama Shuudatsu e Nitimon Shounin (2° Sumo Pontífice) que tinha apenas 12 anos, também, o famoso Tanigawa Assahiti (fiel que cedeu sua residência para a fundação da Honmon Butsuryu Shu), Satou Eikiti, Assai Yasubee, Kojima Hissakiti e o produtor de tofu, Guibee.

Nissen passando pelo interrogatório que provou sua inocência, legalizou sua condição sacerdotal e que transformou todo o acontecimento numa grande bênção, pois há muito que rogavam tais circunstâncias para propagar a religião. Ambas as ilustrações foram desenhadas de próprio punho pelo Nissen Shounin. Constam em sua autobiografia ilustrada.

Totalizaram, assim, sete prisões. Nissen Shounin foi amarrado e colocado numa liteira camburão e conduzido à delegacia de Kyoto Senbon dori, onde foi encarcerado na cela da ala oeste. Esta cela da ala oeste era onde ficavam bandidos, assassinos e os piores marginais da época.

No mesmo dia Nissen Shonin foi enviado para a prisão principal localizada no oeste de Kyoto, onde criminosos assassinos eram mantidos.  A partir do dia seguinte Nissen Shounin passou por um rigoroso interrogatório, até chegarem à conclusão de que a acusação que fizeram contra ele era totalmente falsa, e ele foi libertado em 3 de agosto. No dia seguinte, Graças ao esclarecimento da situação o próprio Governador de Kyoto, Major Nagatani Shoushou Nobuatsu examinou diretamente Nissen Shonin, mas, ao contrário, o governador ficou profundamente impressionado com seu caráter, pelo perfil, coerência, sabedoria das palavras e principalmente pela retidão do seu espírito como um verdadeiro religioso, e publicamente legalizou a condição de monge já que Nissen Shounin não havia ingressado em colégios monásticos que emitiam tal licença e ainda permitiu que continuasse a divulgar amplamente seus ensinamentos sob a concessão da prefeitura de Kyoto. Foi neste ano, e mesmo mês, que a capital, Edo, passou a se chamar Tóquio.

Foi assim que a conspiração dos 64 templos de Otsu terminou. Inicialmente o que parecia uma tragédia, por fim, se transformou em um goriyaku (grande bênção), assegurando a todos o prosseguimento da prática da fé e expansão do Darma Sagrado. Este episódio foi um dos mais marcantes na vida de Nissen Shounin e é chamado de Otsu Gohounan, Admoestação de Otsu. São sofrimentos pelos quais passamos, mas que passamos em prol e pelo único espírito de devoção ao Darma Sagrado. Durante toda sua vida o Grande Mestre Nissen Shounin foi aprisionado por três vezes e despejado por oito. As perseguições e admoestações menores e incontáveis nem mesmo constam nos registros em sua totalidade.

牢に三たび 処は八度 法の難
なんのかんのと ちょこざいにして

Rou ni mitabi tokoro wa yatabi Hou no nan
nan no kan no to tyokozai ni shite

“Encarcerado por três vezes
e despejado por oito,
são as perseguições dármicas
sofridas por conspirações.”

V.3208 Pág.:437: Versos do Grande Mestre Nissen Shounin). Livro – Coletânea de Versos do Budismo Primordial.

 O desenvolvimento da HBS é destaque na história moderna do Japão. Na pessoa do Grande Mestre Nissen Shounin, o Japão encontrou um verdadeiro e criativo restaurador do budismo. Suas realizações recebem reconhecimento fundamental neste período da história do Japão.

 

 

 

Fontes:

Revistas Lótus: 30, 29.
Website:http://ryosetsu.com/2015/06/01/otsu-gohonan-kinen-soko-buddhist-memorial-service-commemorating-nissen-shonins-hardship-in-otsu-persecution/
Castelo Gosho: http://www.kyoto-np.co.jp/kp/koto/gosyo/gosyo_e.html
Haibutsukishaku Undo: http://eos.kokugakuin.ac.jp/modules/xwords/entry.php?entryID=1354
https://web.archive.org/web/20090205180554/http://www.japannavigator.com/junrei/reijo/13-ban.htm

[i] Butsuryu-Kou: Denominação da nossa religião até 1946, quando por lei não era permitida a emancipação ou independência de religiões que faziam parte das facções já existentes.  Até então, era proibido o registro de qualquer nova facção, já que desde o shogunato de Tokugawa faziam dos templos verdadeiros cartórios regionais, aos quais os fiéis não se convertiam, simplesmente eram cadastrados e assim começavam a fazer parte daquela religião independente da sua opção. Em nosso caso incorporávamos a Religião Honmon Hokke-Shu (Templo Honnouji, em Kyouto). Religião estabelecida pelo Grande Mestre Nitiryu Daishounin. Pela decadência que a Honmon Hokke-Shu sofreu após a morte do Grande Mestre Nitiryu Daishounin, Nissen Shounin fundou a Butsuryu-Kou mesmo sem se desmembrar totalmente da Honmon Hokke-Shu e expandiu grandiosamente. Somente na gestão do 7°. Sumo Pontífice Nitijyun Shounin (no período que reassumiu como 10°), no dia 15 de março de 1947 é que conseguimos a tão sonhada independência e passamos a nos chamar Honmon Butsuryu-“Shu”, ao invés de “Kou”.

[ii] Ōtsu (大津市 Ōtsu-shi): é uma cidade japonesa localizada na prefeitura de Shiga. Em 2003 a cidade tinha uma população estimada em 296 387 habitantes e uma densidade populacional de 980,34 h/km². Tem uma área total de 302,33 km². Recebeu o estatuto de cidade a 1 de outubro de 1898.

[iii] O Kyōto Gosho (京都御所), ou Palácio de Kyoto, foi um Palácio Imperial do Japão durante o Período Edo. Atualmente os seus terrenos encontram-se abertos ao público e a Agência da Casa Imperial acolhe visitas turísticas aos edifícios várias vezes ao dia.

Kyōto Gosho foi o último dos palácios Imperiais construído neste sítio (ou nas suas proximidades) da parte nordeste da velha capital, Heiankyo (atual Kyoto), depois do abandono do Palácio Heian 大内裏 (Daidairi), o grande palácio original que se encontrava a oeste do atual Kyōto Gosho durante o Período Heian. O palácio perdeu muitas das suas funções na época da Restauração Meiji, quando a capital foi mudada para Tóquio, em 1869. No entanto, os Imperadores Taisho e Showa ainda tiveram as suas cerimônias de coroação no Kyōto Gosho.

[iv] O clã Tokugawa, (徳川氏; Tokugawa-shi), foi uma família daimiô poderosa do Japão. Eles descenderam do imperador Seiwa (850-880) e antecederam o clã Minamoto (Seiwa Genji) pelo clã Nitta. O brasão do clã Tokugawa, conhecido em japonês como ” mon “, a ” malva tripla ” (embora comumente, mas erroneamente identificado como “malva”, o “aoi” na verdade pertence à família birthwort e se traduz como ” gengibre selvagem ” – Asarum ), tem sido um ícone prontamente reconhecido no Japão, simbolizando em partes iguais o clã Tokugawa e o último xogunato.

[v] Xogum: O termo shōgun (将軍, lit. “Comandante do exército”), foi um título e distinção militar usado antigamente no Japão. Era concedido diretamente pelo Imperador. Como título, é a abreviação de Seii Taishōgun (征夷大将軍, lit. “Grande General Apaziguador dos Bárbaros”), nomeação que até 1192 fora temporária e utilizada para se referir ao general que comandava o exército enviado a combater os emishi (Os Emishi ou Ebisu (蝦夷) foram um grupo essencialmente tribal do Japão), que habitavam no norte do país.

[vi] Restauração Meiji (明治維新) também conhecida como Meiji Ishin, Revolução Meiji, ou simplesmente como Renovação, foi a derrubada do Xogunato Tokugawa. Refere-se a uma série de transformações do regime teocrático do governo do Imperador Meiji. As mudanças se deram nas áreas do governo, instituição, educação, economia, religião, entre outros. A restauração transformou o Império do Japão na primeira nação asiática com um moderno sistema de nação-estado.

[vii] O Período Meiji (明治時代, Meiji jidai) ou Era Meiji constitui-se no período de quarenta e cinco anos do Imperador Meiji do Japão, que se estendeu de 3 de fevereiro de 1867 a 30 de julho de 1912. Nessa fase, o Japão conheceu uma acelerada modernização, vindo a constituir-se em uma potência mundial. No final do Período Edo (1603-1868), o Japão era um país feudal, economicamente atrasado, e que permanecia distante em termos de Relações Internacionais.

[viii] Haibutsu kishaku (廃仏毀釈): (literalmente “abolir o budismo e destruir Shakyamuni”) é um termo que indica uma corrente contínua de pensamento na história do Japão que defendeu a expulsão do budismo. Mais especificamente, indica também um movimento histórico particular e eventos históricos específicos baseados nessa ideologia que, durante a Restauração Meiji, produziu a destruição de templos budistas, imagens e textos, e o retorno forçado à vida secular de monges budistas.

[ix] Honmon Butsuryu-Kou: Denominação da nossa religião até 1946, quando por lei não era permitida a emancipação ou independência de religiões que faziam parte das Escolas já existentes. Era proibido o registro de qualquer nova Escola, já que desde o shogunato de Tokugawa faziam dos templos verdadeiros cartórios regionais, aos quais os fiéis não se convertiam, simplesmente eram cadastrados e assim começavam a fazer parte daquela religião independente da sua opção. Em nosso caso incorporávamos a Religião Honmon Hokke-Shu 本門法華宗 (Templo Honnouji 本能寺, em Kyoto), escola estabelecida pelo Grande Mestre Nitiryu Daishounin.

Pela decadência que a Honmon Hokke-Shu sofreu após a morte do Grande Mestre Nitiryu Daishounin, Nissen Shounin fundou a Butsuryu-Kou mesmo sem se desmembrar totalmente da Honmon Hokke-Shu e expandiu grandiosamente. Somente na gestão do 7°. Sumo Pontífice Nitijyun Shounin, no dia 15 de março de 1947 é que conseguimos a tão sonhada independência e passamos a nos chamar Honmon Butsuryu-“Shu”, ao invés de “Kou”. Os esforços dos bispos na época: Nohara Nitikai, Mimaki Nitiyuu e Tanaka Nisshin foram fundamentais para este acontecimento.