Esta é a primeira parte do Capítulo I de um artigo publicado na Revista Lótus (ano 6, edição número 63).

O texto aborda temas como quem somos nós, o significado das bênçãos, entre outros assuntos interessantes sobre a perspectiva budista.

O artigo foi dividido e, no próximo artigo, abordaremos o tema: “Quem é o Buda Primordial”.

 


 

O Significado da Vida Segundo o Sutra Lótus – Cap. 1 – parte 1

 

Por que praticamos a fé?

 

No mundo existem muitas pessoas que, mesmo não praticando a fé, vivem felizes.

Baseado neste fato, pode-se dizer que a fé é dispensável em nossas vidas? Como podemos responder as pessoas que nos encargos dessa forma?

 

 

A pergunta de Miyazawa Kenji (1896-1933)

 

O famoso escritor e poeta japonês Miyazawa Kenji, também era um fervoroso devoto do Sutra Lótus.

Certa vez, ainda quando era professor numa escola agrícola fez a seguinte pergunta aos alunos:

– Alguém de vocês sabe o porquê de nascermos?

Após ouvir atenciosamente a pergunta, um aluno respondeu:

– Acho que todos os seres nascem pra trabalhar.

Outro respondeu:

– Acho que nascemos para comer.

Depois dessas respostas os alunos começaram a discutir entre si sobre esse assunto. De repente, professor Miyazawa começou a expor o seu ponto de vista.

– Penso que nós nascemos e vivemos para descobrir o porquê de termos nascido. Afinal, só quem nasce, descobre.

Porém, levar a sério ou não esse assunto, determinar o valor real que dá à sua vida.

Ou seja, Miyazawa afirma que a obrigação de cada um descobrir porque nasceu, já que nasceu.

Antes de analisarmos esta questão vamos verificar o significado do “eu” ter nascido.

 

Quem sou “EU”?

 

O que significa “eu”? Se alguém me perguntar, quem é você?

Você poderia responder, sou fulano de tal, com tantos anos, e resido em tal local. Normalmente, é assim que respondemos.

Porém, se analisarmos bem, essa é uma resposta válida unicamente para esta vida. Não revela nada sobre quem fomos antes de nascer o que seremos depois que morrer. Também, não pressupõe sequer se houve ou haverá algum renascimento. Baseado nisso, podemos dizer de fato que não nos conhecemos.

Justamente por sermos assim, desconhecedores de si próprio é que, quando somos perguntados sobre o porquê de termos nascido, não sabemos responder. Por mais que o ser humano pense a respeito de si mesmo, sempre encontrará um limite.

Uma carpa que vive numa lagoa, não sabe que é uma capa e que vive numa lagoa. Mas, o ser humano, por ser superior à carpa sabe que tipo de peixe é, e em qual lagoa vive, e se quiser pode até pescá-la.

Ou seja, somente a partir de um estado de capacidade superior é que podemos visualizar algo com precisão e clareza.

No caso da prática da fé, o Buda Primordial sabe exatamente quem é o que somos, justamente por ser este ‘Ser’ que se encontra na nossa essência é exatamente acima de nós.

Portanto, quando escutamos os ensinamentos de Buda, estamos aprendendo com quem realmente sabe quem somos e o que precisamos. Sendo assim, aprendemos muito mais a respeito do mundo, das pessoas e dos fenômenos que nos acercam. Esse é um dos importantes motivos de estarmos praticando a fé.

 


 

A relação de pai e filho que existe entre nós e o Buda Primordial.

 

No Sutra lótus consta a famosa parábola “nobre pai e pobre filho”. Resumidamente, é assim:

Um jovem, no passado, abandonou seu pai e começou a vagar pelo mundo. Passaram-se 50 anos e seu filho levando uma vida miserável ainda continuava a vagar. O pai procurava incansavelmente seu filho enquanto morava numa mansão repleta de tesouros.

Certo dia, o pobre filho, sem saber, apareceu em frente ao portão da casa do pai. Ficou olhando para dentro, avistou um velho e foi indo embora. Só que este velho era seu pai, que imediatamente o reconheceu e mandou seus servos irem atrás dele. Porém seu filho, ao perceber que estava sendo seguido, apressou-se, e quando alcançado, de susto, desmaiou. Sem outra alternativa o pai mandou soltar o filho e, sem dizer que era seu pai, contratou-o para trabalhar em sua mansão.

Após contratá-lo foi ensinando-o, gradativamente fazendo ou subir de cargo até chegar no posto de maior responsabilidade da mansão.

Então o pai, prevendo que seu momento de partir não estava longe, chamou seu filho e revelou ser seu pai, ao mesmo tempo repassou toda sua riqueza a este filho que era seu legítimo herdeiro.

Neste conto, o pai representa o Buda Primordial e, nós, seus filhos. Revelar ser o pai  e entregar toda a sua fortuna corresponde ao fato de o Buda, como pai, ter revelado a nós e nos transmitido seu maior tesouro, o Sutra Lótus, que ensina o caminho da prática correta para a iluminação.

Ou seja, o Sutra Lótus revela a nossa origem e quem somos através dessa relação de pai e filho representada nessa parábola.

 

(continua)