É bastante comum algum visitante do templo, vez ou outra, perguntar aos monges sobre dinheiro e bens materiais. Alguns acham que o dever do budista é abandonar tudo e desapegar por completo. Há outros que, ao contrário, acham que não é possível desprezar o dinheiro. Cada um tem seus motivos para pensar isso e, em certa medida, estão certos, mas nós buscamos o ponto de equilíbrio.

 

Na verdade, é dever do budista buscar o equilíbrio, e isso não significa desprezar ou abandonar algo. Apenas temos que sempre ter cuidado para não criar a causa do sofrimento. É como se estivéssemos trabalhando com ferramentas muito perigosas que, se forem bem usadas, são úteis, mas que, se forem usadas sem cuidado, podem nos machucar ou machucar alguém.

 

金は陽 つかひやうにて 陰となる

身の害となる ためやうをすな

“O dinheiro é positivo,

dependendo do uso, é negativo.

Evite a forma de acumular

que possa trazer prejuízo.”

(Mestre Nissen Shounin verso nº 771)

 

 

O dinheiro em si não é algo maligno, porém pode despertar, em nós, venenos perigosos. Se for combinado com a ganância, ira ou estupidez, certamente levará nosso coração ao estado de inferno. É dever do budista evitar esse extremo. Rezamos para acumular virtude e manter bons sentimentos no coração. Colocar isso a perder por qualquer coisa seria tolice.

 

金持と 金の番との 二筋は

あほとかしこの わかち也けり

“Os dois seguimentos,

rico ou escravo do dinheiro,

distinguem entre sermos

sábios ou estúpidos.”

 

(Mestre Nissen Shounin verso nº 777)

 


 

Certa vez, enquanto Buda pregava seus ensinamentos pela Índia, avistou algo em meio a uma plantação. Buda disse ao discípulo que o acompanhava que, naquele local, havia uma cobra venenosa e que deveriam ter cuidado com ela. O discípulo foi verificar e logo retornou dizendo ao Buda que entendera a mensagem. Os dois seguiram seu caminho. Porém um fazendeiro que estava por perto ouviu a conversa dos dois e teve curiosidade de ver se de fato havia uma cobra no local.

O fazendeiro constatou que o que havia era um saco cheio de moedas de ouro, aparentemente abandonado ali. O fazendeiro pensou que os monges deviam ser tolos por julgar isso como sendo uma cobra venenosa. Levou as moedas para casa e estava sentindo-se muito satisfeito.

O fazendeiro era uma pessoa preguiçosa e, por esse motivo, não era bem sucedido em nada. Com aquele dinheiro fácil pôde, finalmente, realizar seus desejos. A família parecia feliz, porém, não demorou muito para começarem os problemas. Os filhos, que até então respeitavam o pai, passaram a enganá-lo a fim de arrancar-lhe mais dinheiro. A família então começou a ter discussões que antes não existiam. Ao ficarem ricos de repente, os corações se tornaram gananciosos. Não bastasse isso, certo dia um fiscal veio indagar ao fazendeiro sobre o seu súbito enriquecimento. Eles não acreditaram na explicação e o prenderam por acharem que fez algo ilícito.

Na prisão, o fazendeiro sentiu-se arrependido e sempre repetia as palavras que Buda havia dito a seu discípulo aquele dia. Por fim, entendeu que aquele dinheiro fácil era na verdade uma cobra venenosa. O fazendeiro repetiu tantas vezes esse ensinamento que chamou a atenção das autoridades. Elas o libertaram e, com essa nova chance, ele entendeu que a ganância é um veneno perigoso. Entendeu também que a riqueza deve acontecer por merecimento e que viver em harmonia é o verdadeiro tesouro.

 


 

Nós budistas acreditamos que ter dinheiro ou bens materiais não é problema, mas não devemos corromper nosso coração. Tudo o que for combinado com os venenos da ganância, ira e estupidez se transformará na desgraça de nossa família. Queremos evitar isso, bloqueando esses venenos através da lapidação espiritual com a oração, a meditação e os ensinamentos. Todos os dias, podemos ser tentados a sucumbir e, por isso, todos os dias recorremos à força do Namumyouhourenguekyou (Darma Sagrado) para proteger nosso coração, eliminar nossos carmas negativo e alcançarmos a verdadeira felicidade.

 

かねためる 人の得しらぬ たのしみは

妙の功徳を ためるたのしみ

“Quem só acumula dinheiro

desconhece o prazer

de quem acumula as virtudes

do maravilhoso Darma.”

 

(Mestre Nissen Shounin verso nº 764)

 

Fonte: Adaptado de Revista Lótus edição 94, pág. 10-14.